sábado, 25 de julho de 2009

Luz

A luz, na verdade,
e tudo que importa,
é onda e partícula.

domingo, 19 de julho de 2009

A semana planetária e tempos propícios segundo os cabalistas

“Debaxo deste grande Firmamento,
Vês o céu de Saturno, Deus antigo;
Júpiter logo faz o movimento,
E Marte abaxo, bélico inimigo;
O claro Olho do céu, no quarto assento,
E Vénus, que os amores traz consigo;
Mercúrio, de eloquência soberana;
Com três rostos, debaxo vai Diana.”
(Camões, Os Lusíadas, X.89)

Lendo este artigo interessante sobre a semana planetária, que dá uma explicação para a sequência específica dos planetas nos nomes dos dias (já se perguntou sobre isso?), lembrei-me de um comentário do rabino Aryeh Kaplan sobre o Sêfer Ietsirá, Astrologia e tempos favoráveis:

“Há um mandamento que diz: “Não se achará entre vós...quem calcula tempo (Meonen)” (Deuteronômio 18:10). No Talmud, segundo Rabi Akiva, esta proibição aplica-se especificamente àqueles que calculam tempos auspiciosos, e muitas autoridades aceitam esta opinião como consistente. Entretanto, esta frase unicamente significa que não se deve fazer da astrologia uma influência dominante na própria vida. Como se deduz de todos os comentários ao Sêfer Ietsirá, quando alguém está engajado nestas técnicas místicas esta proibição não é aplicável. Ver Tabela 37

Tabela 37. Conceitos e tempos favoráveis (de acordo com o Gra)

Sabedoria
Bet. Lua, olho direito, Chéssed, sul, branco;
Sábado à noite, 19-20h., 02-03h; Domingo 09-10h e 16-17h

Riqueza, Amor
Guímel, Marte, ouvido direito, Guevurá, norte, vermelho;
Domingo á noite, 19-20h., 02-03h; Segunda-feira, 09-10h e 16-17h.

Semente: filhos e coisas relativas a isso
Dalet, Sol, narina direita, Tiféret, leste, amarelo;
Segunda-feira à noite, meia-noite-01h; Terça-feira, 07-08h e 14-15h.

Vida. Saúde
Caf, Vênus, olho esquerdo, Nêtsach, acima, pálpebra superior;
Terça-feira à noite, 22-23h, 05-06h; Quarta-feira, meio-dia 01h.

Domínio, Avanço
Pê, Mercúrio, olho esquerdo, Hod, abaixo, pálpebra inferior;
Quarta-feira noite, 20-21h, 03-04h; Quinta-feira, 10-11h e 17-18h

Paz, interna e externa
Resh, Saturno, narina esquerda, Iessód, oeste, negro;
Quinta-feira à noite, 19-20h, 02-03h; Sexta-feira, 09-10h e 16-17h.

Graça, atração, melhoramento da personalidade
Tav, Júpiter, boca, Malchut, centro do ser (si mesmo), azul;
Sexta-feira à noite; meia-noite-01h; Sábado, 07-08h e 14-15h.
Tome cuidado para não violar o Shabat.”
(Aryeh Kaplan, Sêfer Ietsirá, p. 206)

Montando também a semana planetária numa tabela, fica mais ou menos assim:

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Anotações sobre Madonna e a Cabala

Madonna Campori, Antonio da Correggio (1489-1534)

[Este texto é dedicado a Juliana. Assim como Madonna, ela é uma leonina com Lua em Virgem.]

A Cabala, do jeito que eu a entendo, não é uma religião, é um sistema mágico-simbólico. Já foi (e ainda é) usado por gente tão antitética quanto cristãos e thelemitas. O cabalista cristão renascentista Pico della Mirandola dizia numa de suas 900 teses que lhe causaram muitos problemas:

9. Nulla est sciencia, que nos magis certificet de divinitate Cristi, quam magia et cabala.
(Nenhuma ciência nos certifica mais da divindade de Cristo do que a magia e a cabala)

Creio que o momento é oportuno para tentar falar um pouco da relação com a Cabala daquela que é possivelmente a mais bem-sucedida cabalista contemporânea em termos materiais (o que pode não querer dizer nada, é verdade) e como ela se reflete na sua produção artística.

Em setembro de 2001, a revista da Hebraica, um clube de São Paulo, publicou uma entrevista com Moshe Idel (professor da Universidade Hebraica de Jerusalém e um dos maiores estudiosos acadêmicos vivos da Cabala) na qual perguntava o que ele pensava sobre o envolvimento de Madonna com a tradição esotérica judaica, tendo em vista a (suposta) proibição de mulheres a estudarem. O erudito respondeu:

“A Cabala não proíbe realmente as mulheres de estudá-la, apenas não as encoraja. Assim como outras pessoas, Madonna também estuda a Cabala. Não existe uma “inquisição” que determina “isto é certo ou errado”. Um rabino cabalista talvez dissesse isto é terrível, errado. Eu não me preocupo. Vejo as coisas como elas são, tentando não julgá-las. Também não posso dizer , com certeza, que Madonna seja superficial. Quem sabe ela possa trazer alguma contribuição totalmente original à Cabala, com ângulos novos.”
*******
O nome judaico que Madonna escolheu, Esther (אסתר), está relacionado a estrela e vale 661 em gematria (e, portanto, 666 quando precedido do artigo definido ה). Talvez tenha alguma relação com a letra da música “American Life”, na qual ela diz não ser judia nem cristã e pergunta:

Do I have to change my name?
Am I gonna be a star?

Pode não ter sido intencional, mas guarda relação semântica e simbólica com o fato dela ter assumido um novo nome que significa “estrela”.

A mudança de nomes com intenção mágica tem papel notadamente importante na tradição judaico-cristã. Acredita-se que em certas circunstâncias a mudança de nome pode alterar um destino funesto ou de possibilidades esgotadas.

Na Cabala o 666 tem um aspecto positivo, solar, talvez em parte por estar associado ao quadrado mágico do Sol.

Já no Cristianismo, predomina o estigma de 666 ser o “número da Besta” mencionado no Apocalipse, fazendo-o usualmente ser correlacionado à rebeldia, à transgressão e ao diabólico.

Curiosamente, no videoclipe de “What it feels like for a girl”, que tem como tema uma mulher revoltada com o mundo dominado por homens, o número 666 aparece de relance quando uma porta é batida.

*******

Madonna aborda conceitos cabalísticos também no vídeo da música “Die Another Day”, que faz parte da trilha sonora de um filme de 007 e toma emprestado um pouco de sua imagética.

Há duas linhas de ação. Numa o “lado negro” de Madonna combate sua contraparte luminosa, o que lembra um trecho de um livro fundamental da tradição cabalística, o Sêfer Ietsirá:

“'Deus também fez um oposto ao outro'(Eclesiastes 7:14) O bem oposto ao mal, o mal oposto ao bem. O bem vem do bom, o mal vem do mau. O bem define o mal e o mal define o bem. O bem é guardado para os bons e o mal é guardado para os maus.”

A isso a cantora mistura a doutrina do judeu rebelde Sigmund Freud, um dos grandes paladinos do ateísmo no século XX. Eros e Thanatos, pulsão pela vida e pulsão pela morte.

E, na outra linha de ação, exterior, ela é torturada por um bando malfeitores. Aí ela aparece com as letras hebraicas לאו lamed-alef-vau [que podem ser a transliteração da palavra inglesa “love” e também um (ou talvez dois) dos 72 nomes divinos tradicionalmente extraídos de certa passagem de três versículos do Êxodo], pintadas no braço direito. Na simbologia cabalística o braço direito corresponde à sefira Chesed (חסד), a Misericórdia de Deus e cujo nome vale 72.

72 nomes divinos extraídos de Êxodo 14:19-21

Nesse vídeo, Madonna parece tratar do tema tradicional da grande guerra santa (interior) em contraposição à pequena guerra santa (exterior), mostrando que uma se reflete na outra. Como disse Idel, talvez a cantora não seja tão superficial quanto pode parecer à primeira vista.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Duas palavras gregas antigas que perduram disfarçadas nas línguas modernas

Mencionei o Sol (Ήλιος, Hélios) há alguns dias. Notei depois esta curiosidade: escrevendo de trás para frente fica soile, evidentemente relacionado ao Sol latino, que permanece até hoje no português. No francês é ainda mais próximo, um quase anagrama mas com o acréscismo de um L (soleil).

Outra palavra moderna que quase certamente deriva do grego é a inglesa daughter (filha), que é muito semelhante à grega θυγάτηρ, thugáter.