sábado, 28 de março de 2009

Eu, que morri, vivo hoje novamente

Hoje alguém que foi muito importante para mim mas que eu não sei por onde anda há muito tempo está fazendo 30 anos; lendo a Orquídea Negra de Neil Gaiman e Dave McKean, conheci este poema de e.e. cummings que me parece apropriado deixar aqui em homenagem a ela.
Querida A., espero que você esteja bem e tenha conseguido superar tudo que havia de sombrio e negativo na sua vida e na sua alma. Ter conhecido você significou muito para mim. Eu nunca te esqueci e acho que nunca vou esquecer.

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i thank You God for most this amazing
day:for the leaping greenly spirits of trees
and a blue true dream of sky; and for everything
which is natural which is infinite which is yes

(i who have died am alive again today,
and this is the sun's birthday; this is the birth
day of life and of love and wings: and of the gay
great happening illimitably earth)

how should tasting touching hearing seeing
breathing any--lifted from the no
of all nothing--human merely being
doubt unimaginable You?

(now the ears of my ears awake and
now the eyes of my eyes are opened)


[agradeço a Você, Deus, por este maravilhoso
dia: pelos espíritos verdejantes das árvores
e por um verdadeiro sonho azul de céu; e por tudo
que é natural, que é infinito, que é sim.

(eu, que morri, vivo hoje novamente,
e este é o aniversário do sol; este é o dia
do nascimento da vida e do amor e asas: e do alegre
grande acontecimento ilimitavelmente terra)

como deveria provando, tocando, ouvindo, vendo,
respirando qualquer – levantado do não,
de todo nada – humano meramente sendo
duvidar inimaginável Você?

(agora os ouvidos de meus ouvidos despertam e
agora os olhos de meus olhos são abertos)]

quinta-feira, 12 de março de 2009

The Nazz



“Seres humanos são enormes depósitos de energia, imensos reservatórios de força, a força vital, determinada a subjugar a matéria.” Colin Wilson

“Desejo de poder. Não há outra força física, dinâmica ou psíquica exceto esta. A essência mais íntima do ser é o desejo de poder. Prazer é cada aumento de poder. Desprazer é cada sentimento de ser incapaz de dominar.” Nietzsche

“Dissolva as modificações da mente e um poder infinito vai se desencadear em você.” Patanjali

Outra HQ que daria um belo filme é The Nazz (1990), de Tom Veitch e Bryan Talbot. Foi publicada pela editora Abril em 1992.

Acho que Veitch, que além de quadrinhista é escritor e poeta, não tem muitas HQs de destaque. A única outra dele que lembro já ter lido é A Guerra de Luz e Trevas, que é bastante inferior a esta The Nazz. Veitch também já escreveu HQs para o universo de Star Wars.

The Nazz é um Watchmen com explicação mística para os superpoderes do “super-homem”. (No caso de Watchmen, o único verdadeiro super-homem é o Dr. Manhattan, que tem origem num acidente de ficção científica).

Michael Nazareth, um escritor com nietzschiana sede de poder, vai ao Oriente e passa por um processo sanguinário de ascese. Quando volta, tendo adquirido poderes quase ilimitados, forma uma seita e acaba se tornando uma espécie de Anticristo cruel e obeso que almeja destruir o mundo...

terça-feira, 10 de março de 2009

Impressões sobre Watchmen, o filme




Fui assistir a Watchmen na sexta-feira. Gostei muito. A despeito dos inevitáveis cortes e alterações na adaptação de uma maxissérie de quadrinhos para um filme, fica claro que a transposição fiel de muitas cenas é perfeitamente factível e proporciona resultados muito bons.

Há cerca de vinte anos, em 1989, eu estava lendo pela primeira vez a história, na primeira publicação dela pela editora Abril aqui no Brasil, em seis edições.

Na quinta-feira peguei a coleção e reli para poder aproveitar melhor o filme. Muito bom perceber que muitas das referências que na adolescência pouco ou nada significaram hoje são bem mais familiares. Para mim, Watchmen transcende o mundo marginal dos quadrinhos e é mesmo uma das grandes obras literárias do século XX, como já a classificou a revista Time.

Alan Moore não criou apenas um enredo envolvente mas todo um universo paralelo bastante verossímil.

Vale notar que a obra é da fase anterior ao envolvimento profundo do escritor inglês com a Magia e por isso não há nada (ou talvez quase nada) de sobrenatural na trama.

A história coloca uma série de questões filosóficas e metafísicas. O que é o tempo? Qual o valor da vida humana? Quantas vidas é legítimo sacrificar para tentar salvar a humanidade? O estupro tem perdão? Qual o significado da vingança? O que é justiça? Como se comportaria um quase-deus no nosso mundo? Fala da selvageria humana mas também da quase ilimitada capacidade de amar e perdoar. O mundo super-heroico de Moore não é maniqueísta, nenhum herói ou vilão é plenamente bom ou plenamente mau (exceto, talvez, o bandido que esquarteja uma menininha e a dá para os cães).

Os fãs mais radicais provavelmente criticarão muito as mudanças dispensáveis, mas creio que o filme consegue ser bastante fiel ao espírito e à forma da história original.

Um aspecto que me desagradou um pouco foi a violência estilizada e irrealista de algumas cenas (uma tendência contemporânea em voga desde Matrix eu suponho) mas isso não chega a comprometer em nada a diversão.

Os leitores atentos notarão também que a personalidade da Silk Spectre II, interpretada pela bela atriz sueco-canadense Malin Åkerman, foi um pouco suavizada para torná-la uma heroína mais “agradável” do que é na HQ.

Um destaque positivo é a interpretação do Rorschach por Jackie Earle Haley.

É de se esperar que a versão para DVD do filme, com todos os extras, será ainda mais próxima do que deve ser uma boa adaptação de um clássico das histórias em quadrinhos.